top of page

Caim, Abel e as feridas entre irmãos: uma reflexão a partir de A Leste do Paraíso

psimonicaleal
4 de out.
6 min de leitura

Há histórias que terminam quando acaba o último episódio. Outras continuam connosco.


Foi o que me aconteceu ao assistir à recente adaptação de A Leste do Paraíso, de John Steinbeck. A série acompanha várias gerações da família Trask e recupera uma das mais antigas histórias sobre rivalidade entre irmãos: Caim e Abel. A própria adaptação coloca no centro da narrativa a questão da escolha e da possibilidade de não ficarmos presos àquilo que herdámos ou vivemos.


Cal e Aron, os filhos gémeos de Adam, parecem carregar novamente esse conflito ancestral.

Aron surge associado à bondade, à inocência e ao idealismo. Cal sente-se mais próximo daquilo que considera sombrio na sua família. Observa o irmão, observa o amor do pai e começa a fazer uma pergunta profundamente humana:


“E se houver alguma coisa de errado em mim?”


É precisamente aqui que a história deixa de ser apenas uma narrativa familiar e se aproxima de algo que encontro muitas vezes na prática clínica.


Quando o irmão se transforma na prova de que não fomos escolhidos


Os conflitos entre irmãos nem sempre começam verdadeiramente entre irmãos.

Por vezes, começam muito antes.


Na experiência de uma criança que sentiu que o irmão era mais elogiado.

Na sensação de que um dos filhos precisava sempre de menos e, por isso, recebia menos atenção.

Na comparação constante.

Na criança considerada “responsável” enquanto a outra podia falhar.

Naquela que era “difícil”, enquanto o irmão era apresentado como “o bom”.

Ou simplesmente na perceção — correta ou não — de que o amor, a aprovação ou o reconhecimento dos pais não foram distribuídos da mesma forma.


Décadas depois, podem continuar discussões aparentemente relacionadas com dinheiro, heranças, cuidados aos pais, escolhas de vida ou acontecimentos familiares.


Mas por baixo da discussão atual pode continuar a existir uma pergunta muito antiga:


“Porque é que ele recebeu aquilo de que eu também precisava?”

E então o irmão deixa de ser apenas um irmão.

Torna-se o símbolo do que me faltou.

Do amor que pensei não ter recebido.

Do reconhecimento que procurei.

Da liberdade que não tive.

Daquilo que acredito que deveria ter sido meu.


Caim e Abel: quando a ferida se desloca


Na narrativa bíblica, Caim e Abel apresentam as suas oferendas a Deus. A oferenda de Abel é favorecida; a de Caim não.

Caim sente raiva.

Mas a raiva não se dirige apenas à experiência de rejeição.

Dirige-se ao irmão.

E Caim mata Abel.

Vista psicologicamente, há algo profundamente atual nesta história.

Perante uma experiência de rejeição, poderíamos perguntar:


“O que significa para mim não ter sido escolhido?”


Mas é muito mais fácil concluir:


“Tu foste escolhido em vez de mim. Portanto, tu és o problema.”


O sofrimento que nasceu numa relação vertical — entre a criança e a figura parental — pode deslocar-se para uma relação horizontal: irmão contra irmão.


O irmão passa a carregar a culpa por uma ferida que, muitas vezes, não criou.

É algo que podemos continuar a reproduzir muito para além da infância.


“Ela sempre foi a preferida.”

“Ele recebeu tudo.”

“Eu tive de lutar por tudo.”

“Ela nunca teve de provar nada.”

“Os meus pais sempre estiveram mais disponíveis para ele.”


As frases podem referir factos reais. E reconhecer diferenças, injustiças ou experiências dolorosas é importante.


O problema surge quando aquilo que aconteceu deixa de ser apenas parte da nossa história e se transforma na definição da nossa identidade:


“Eu sou aquele que nunca é escolhido.”


A interpretação de Neville Goddard


Foi precisamente esta história de Caim e Abel que me levou também a recordar uma interpretação de Neville Goddard, autor espiritual conhecido pela importância que atribui à imaginação e aos estados de consciência.


É importante fazer aqui uma distinção: Neville Goddard não é uma referência científica da Psicologia e as suas ideias não constituem um modelo psicoterapêutico validado. Interessa-me, neste contexto, a sua leitura enquanto metáfora sobre o funcionamento humano.


Em Seedtime and Harvest, publicado em 1956, Neville propõe que Caim e Abel não sejam lidos apenas como duas personagens, mas como representações de “dois estados contrários da alma humana”.


Na sua interpretação, Caim representa a consciência totalmente submetida às aparências e às circunstâncias externas.


É aquilo que vejo e, por isso, concluo que é aquilo que sou.

Fui rejeitado, logo não tenho valor.

O meu irmão foi preferido, logo sou menos amado.

Falhei, logo sou um fracasso.

Fui abandonado, logo serei sempre abandonado.

Abel, pelo contrário, representa para Neville a capacidade de imaginar uma realidade para além daquilo que os sentidos mostram naquele momento — aquilo a que associa a fé e a possibilidade de mudança.

Não significa negar a realidade.


E, do ponto de vista psicológico, seria até perigoso interpretar esta ideia como “basta pensar positivo” ou como se situações reais de abuso, rejeição, desigualdade ou trauma devessem ser simplesmente imaginadas de outra forma.

Não é essa a leitura que me interessa.


O que considero interessante é outra questão:


aquilo que aconteceu comigo tem necessariamente de determinar aquilo que acredito ser?


Talvez todos tenhamos um Caim e um Abel


Podemos transportar esta metáfora para a psicologia.

Há em nós uma parte que olha para a nossa história e diz:


“Está aqui a prova.”


A prova de que não somos suficientemente bons.

A prova de que ninguém fica.

A prova de que os outros recebem sempre mais.

A prova de que não somos escolhidos.


Essa poderia ser a voz de Caim.


Não porque seja “má”, mas porque está profundamente identificada com a ferida.

E talvez Abel represente a possibilidade de introduzir uma pergunta nova:


“E se aquilo que me aconteceu não tiver de ser a minha identidade?”


Este movimento não apaga o passado.

Não transforma pais imperfeitos em pais perfeitos.

Não elimina injustiças.

Não obriga ao perdão.

E não significa manter relações que continuam a ser prejudiciais.


Significa apenas reconhecer que existe uma diferença entre:


“Isto aconteceu-me.”


e


“Isto é quem eu sou.”


Essa diferença pode ser profundamente terapêutica.


“Timshel”: tu podes


E é precisamente aqui que A Leste do Paraíso se torna, para mim, particularmente bonito.

Ao longo da obra surge a palavra timshel. Na interpretação apresentada por Steinbeck e preservada pela série, Lee traduz a palavra como “tu podes”: a possibilidade de escolher, de não considerar o destino completamente determinado pela origem ou pelas ações dos nossos antepassados. A criadora da adaptação, Zoe Kazan, descreveu precisamente esta ideia como a possibilidade de nos pensarmos enquanto seres capazes de mudança.

Cal acredita durante grande parte da história que poderá ter herdado algo mau.


Olha para a sua mãe.

Olha para o seu irmão.

Olha para o pai.


E tenta descobrir de que lado está.


Mas talvez essa seja precisamente a pergunta errada.


A questão não é apenas:


“O que herdei?”


A questão também pode ser:


“O que escolho fazer com aquilo que herdei?”


Na terapia encontramos frequentemente pessoas que carregam histórias familiares muito pesadas.


Abandono.

Violência.

Dependência.

Silêncio emocional.

Crítica.

Infidelidade.

Parentificação.

Rivalidade.

Segredos familiares.


Mas uma história explica muito sem ter de determinar tudo.

Podemos compreender de onde vieram determinados padrões e, simultaneamente, criar formas diferentes de estar connosco e com os outros.


Talvez o irmão nunca tenha sido verdadeiramente o inimigo


Há uma pergunta que pode ser difícil, mas muito transformadora, quando existe um conflito profundo entre irmãos:


Se retirássemos o meu irmão desta história, qual seria a ferida que continuaria aqui?


Talvez aparecesse:


“Eu queria que a minha mãe me tivesse visto.”

“Eu queria ter sentido orgulho no olhar do meu pai.”

“Eu queria ter tido o direito de ser frágil.”

“Eu queria não ter sido sempre responsável.”

“Eu queria ter sentido que havia espaço suficiente para nós os dois.”


E talvez então possamos perceber que algumas guerras entre irmãos são, na realidade, guerras antigas por amor, reconhecimento e pertença.

Caim olha para Abel e vê aquele que recebeu.

Mas talvez a verdadeira dor de Caim não seja Abel.

Talvez seja aquilo que Caim passou a acreditar sobre si próprio quando sentiu que não tinha sido escolhido.


É por isso que esta história escrita há milhares de anos continua tão atual.

Porque talvez todos conheçamos, em algum momento, esse lugar interior.


O lugar da comparação.

Da inveja.

Da rejeição.

Da sensação de injustiça.


Mas também existe outra possibilidade.


Reconhecer a ferida sem permitir que ela se transforme no nosso destino.

E talvez seja essa uma das mensagens mais bonitas de A Leste do Paraíso:


não escolhemos tudo aquilo que recebemos, mas podemos participar naquilo que fazemos com isso.


Timshel.


Tu podes.


 
 
 

Comentários


EmocionalMente - Av. 25 de Abril de 1974, 3B, 2º esq. 2800-300 Almada
919 211 581   |   psimonicaleal@gmail.com

  • Instagram
  • Facebook

2026

bottom of page